As primeiras sessões de cinema na Madeira decorreram em 1897, no Teatro D. Maria Pia
Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira
A Photographia - Museu "Vicentes" tem à sua guarda, desde 2005, um conjunto de filmes muito raros. Trata-se de 40 películas de origem francesa de 1895-96, em 35 mm. A nível mundial só são conhecidas três colecções semelhantes, uma existente na Filmoteca Espanhola de Madrid, outra na Cinemateca Suíça, mas a maior e a mais completa é a da Região.
São películas de um minuto, cujo registo foi efectuado com a câmara fixa apontada para uma praça, uma rua, um monumento conhecido. "Avenida do Bosque de Boulogne e Arc-de Triomphe", "Dança Espanhola", "O jardineiro" são alguns dos títulos. Foram os primeiros filmes a serem projectados na Madeira.No âmbito do projecto comunitário Cinemedia (Recuperação e Digitalização do Património Cinematográfico dos Açores, Madeira Canárias) (ver texto ao lado), esta colecção será restaurada e duplicada de modo a garantir a sua preservação.
Com esse objectivo a Photographia -Museu "Vicentes" constituiu-se depositante da Cinemateca Portuguesa, instituição que possui o Arquivo Nacional de Imagem em Movimento (ANIM), departamento responsável pela salvaguarda e conservação do património cinematográfico do país. O depósito na Cinemateca Portuguesa não implica transferência de propriedade. Os filmes estão a ser enviados gradualmente para serem conservados em condições ideais de temperatura e de humidade. Numa segunda fase, serão reparados, limpos e duplicados de modo a existirem elementos intermédios de segurança e para que possam ser projectados. O Museu "Vicentes" guardará também uma cópia de todas as películas.Tiago Baptista, do Centro de Conservação da Cinemateca, diz ao Diário que a colecção tem importância internacional pelo seu formato denominado "Joly-Normadin", nome de dois engenheiros franceses, concorrentes dos irmãos Lumière, que criaram em 1896 uma câmara, um projector e um tipo de filmes.
João Anacleto Rodrigues, um empresário da nossa praça, comprou este tipo equipamento e a 15 de Maio de 1897 alugou o Teatro D. Maria Pia, actual Teatro Municipal Baltazar Dias, onde realizou a primeira sessão de cinema na Madeira. Então foram exibidas 12 curtas-metragens. Em 2005, os filmes que adquiriu, cerca de 40, foram depositados no Museu "Vicentes".
A instituição possui ainda «um segundo conjunto importante. São documentários dos anos 30 e também filmes dos anos 40 a 70, do século passado, realizados por operadores da Madeira ou do Continente.Foram encomendados por instituições madeirenses, algumas públicas e outras privadas, sobre acontecimentos específicos. Por exemplo, existe um filme que comemora o centenário da Associação Comercial do Funchal (1936), um outro que regista uma exposição de floricultura, o "X Aniversário da Revolução Nacional - 1936"...
Em geral, chegaram em muito boas condições. Alguns apresentam sinais de degradação, mas ainda vamos a tempo de duplicá-los». Conforme explica, no caso dos filmes "Joly-Normandin" «o processo de duplicação é complicado porque têm características técnicas que não são estandardizadas, o que os torna únicos. O equipamento que vamos usar para duplicar não é totalmente compatível com estes filmes e as máquinas terão de ser alteradas. Por isso o trabalho só pode ser feito num laboratório de restauro de uma cinemateca e não num laboratório comercial». Neste processo a Cinemateca Portuguesa conta com a colaboração da Filmoteca Espanhola. Os filmes serão duplicados para materiais actuais, não inflamáveis, ao contrário do tipo de película que era utilizada até 1951.
No próximo ano, completam-se 110 anos das primeiras sessões de cinema na Madeira. «Era importante que tudo estivesse pronto em 2007, mas ainda não sabemos se será possível até essa data», conclui Tiago Baptista.
Madeira recupera património fílmico
Novos dados sobre a história do cinema madeirense serão conhecidos no próximo mês do Outubro, com a edição de um "Prontuário do cinema" e de uma colecção de DVD's relativa ao cinema insular Atlântico. Integrarão informações sobre filmes, realizadores, directores, produtores, salas de espectáculo dos Açores, Madeira e Canárias.A iniciativa integra-se no projecto comunitário Cinemedia (Recuperação e Digitalização do Património Cinematográfico dos Açores, Madeira e Canárias), que entre outros objectivos visa a recuperação, digitalização e catalogação do património cinematográfico dos referidos arquipélagos. Através do site www.cinemedia-mac.com será também disponibilizada toda a informação da História do Cinema na Madeira.
O ano 1895, marca o início da história do cinema mundial, quando a 28 de Dezembro os irmãos Lumière espantaram três dezenas de espectadores com o seu cinematógrafo movido a manivela. A Madeira não fica alheia à nova arte e dois anos depois, a 15 de Maio de 1897, têm lugar as primeiras sessões cinematográficas no Funchal. Actualmente o Museu "Vicentes" possui entre o seu acervo, um fundo constituído por cerca de 40 filmes em formato Joly -Normandin (ver texto ao lado), peças dos primórdios da imagem em movimento, diapositivos para Lanterna mágica, películas de diversa proveniência, um núcleo muito grande de filmes-documentários encomendados por antigas entidades oficiais, como a Delegação de Turismo e a Junta Geral que utilizavam essas películas para promoção do Arquipélago da Madeira. Possui ainda outras colecções da Casa Perestrelos e da Foto Figueiras. O museu conta ainda com a integração de fundos provenientes de organismos do Governo Regional, explica Helena Araújo, directora da Photographia - Museu "Vicentes", a instituição que lidera o referido projecto na Região.
Atendendo a esse espólio o Cinemedia constitui «uma mais valia, pois veio despertar para uma vertente que estava um pouco adormecida. Existia a intenção de criar o Museu da Imagem da Madeira que integrasse o cinema e a fotografia, que agora está a ser dinamizado. O projecto trouxe também uma maior projecção do espólio, quer em termos regionais, quer nacionais e ainda que filmes dos primórdios do cinema da Madeira fossem depositados.
Alguns deles já tinham sido dados como perdidos pela Cinemateca Portuguesa e neste momento encontram-se no Museu "Vicentes" para serem recuperados e duplicados. Está a ser feito o inventário sistemático de todos os filmes existentes na Região e no futuro prevê-se que sejam editados em DVD», acrescenta a responsável. O Cinemedia termina em Outubro mas, conforme adianta Helena Araújo, o projecto terá continuidade. «O Museu "Vicentes" possui objectos do ex-Cine Jardim, nomeadamente mobiliário, máquinas de projectar, todo o material audiovisual da antiga Delegação de Turismo da Madeira e o nosso objectivo é dar utilidade a este espólio».
Açores quer criar arquivo de imagem
A participação dos Açores no projecto Cinemedia é uma oportunidade para criar o Arquivo de Imagem dos Açores, disse ao Diário Rafael Barcelos, da Direcção Regional da Cultura do referido arquipélago.«Com os dois projectos de cooperação interregional o Mediat (Memória Digital Atlântica), relativo à fotografia, e o Cinemedia estamos a tentar chegar ao fim com uma plataforma que nos permita criar o referido arquivo».
O Mediat possibilitou a criação do Arquivo de Fotografia dos Açores, «uma estrutura electrónica que é relativamente complexa, porque, ao contrário da Madeira, que tem um vasto espólio, mas essencialmente dois grandes fotógrafos e duas ilhas, nós temos nove ilhas e uma diversidade de organismos, como bibliotecas públicas, museus de ilha e criámos uma estrutura que contempla essa divisão administrativa».
O tratamento do espólio fotográfico dos Açores começou a ser efectuado com o Mediat, em 2003. «Partimos de uma plataforma frágil, enquanto a Madeira já começou há 20 anos. Podemos mesmo dizer que antes havia acervos fotográficos públicos que estavam guardados em caixas de cartão sem qualquer tipo de inventariação e catalogação. Hoje, os Açores tem um arquivo de fotografia e estamos a trabalhar no projecto do cinema», afirma Rafael Barcelos.
Canárias restaura 70 películas
O projecto Cinemedia «tem uma importância muito grande para Canárias», afirma António Vela, do Centro de Fotografia Isla de Tenerife. Conforme explica, «os recursos económicos são sempre pequenos ao nível das instituições públicas e no caso do projecto Mediat (Memória Digital Atlântica) significou a possibilidade de contratar pessoal, adquirir material, digitalizar todos os nossos fundos, que integram cerca de 20 mil fotografias e estão a aumentar graças ao projecto».No que diz respeito ao cinema, «com a Filmoteca de Canárias pudemos fazer um restauro de películas que estavam em mau estado físico, e digitalizá-las. Num ano restauramos cerca de 70 películas que são importantes para a memória de Canárias», revela o responsável.
Teresa Florença
grandioso. É como se pode retratar o museu vicente's pela sua grande obra de documentação do nosso passado. Apenas gostaria de saber como adquirir fotos da Madeira antiga? poderiam enviar essas informações para o meu mail.
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