segunda-feira, 21 de maio de 2007

Gestão privada dos espaços naturais é opção que agrada a ambientalistas

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira


 


Domingos Abreu e Rocha da Silva defendem a estratégia; Raimundo Quintal tem algumas reservas ; Manuel António diz que é cedo para falar.


 


Jardim Botânico e Reserva do Garajau figuram entre as áreas apresentadas como passíveis de privatizar


 



 


Mais desenvolvimento, sustentabilidade, lucro e novas áreas de negócio. Estes são os atractivos que justificam, no entender de Domingos Abreu, a associação de empresas privadas à gestão de espaços naturais protegidos. A ideia não "choca" o director regional do Ambiente e é do agrado de Rocha da Silva, governante com a tutela das Florestas, mas não deixa por isso de ser, nas palavras de Domingos Abreu, um tema fracturante."Quem se dedica à conservação da natureza tem um olhar desconfiado sobre a iniciativa privada", afirma o tutelar da pasta do Ambiente, cuja defesa da privatização é, enfatiza, "uma opinião pessoal".


 


Resultado da evolução do pensamento conservacionista, a conexão dos projectos de preservação com planos de desenvolvimento direccionados para a melhoria da qualidade de vida das populações que coexistem com os espaços naturais é hoje uma tendência internacional."A questão não se reduz à privatização, mas sim à possibilidade de esses espaços poderem gerar riqueza e uma melhor economia", acautela Rocha da Silva.


 


Na prática, a gestão privada das áreas protegidas representa, para Domingos Abreu, um grande potencial para a utilização sustentável dos recursos naturais, abrindo novos nichos ao investimento económico em sectores importantes para a Região, como é o caso do turismo.


 


Entre os sectores de negócio passíveis de dinamização, o director regional do Ambiente coloca o pequeno comércio, o alojamento e a oferta gastronómica associada aos valores naturais e culturais, tais como a gastronomia regional.


 


Domingos Abreu diz ainda que as entidades públicas com responsabilidade na gestão dos espaços naturais protegidos não têm capacidade para dinamizar o investimento, uma que vez a sua natureza está mais vocacionada para a investigação e para a gestão preventiva.


 


"Neste sentido, seria perfeitamente compatível que a administração pública continuasse a assegurar o seu papel regulamentador e fiscalizador, deixando os privados intervirem nas actividades em termos do investimento", explica.


 


Ao defender a introdução da gestão privada na gestão das áreas protegidas, Domingos Abreu faz questão de esclarecer que não é apologista de "uma abertura selvagem desses espaços ao público", considerando que a opção implicaria um plano de ordenamento e regras de gestão para obrigar os gestores privados a assegurarem os valores fundamentais da conservação natural.


 


Contudo, não obstante a cautela do director regional, Manuel António Correia, secretário regional do Ambiente e Recursos Naturais, considera que é cedo para falar no assunto, sobretudo numa altura em que o Governo ainda não tomou posse.


 


GARAJAU E JARDIM BOTÂNICO PASSÍVEIS DE PRIVATIZAÇÃO


 


Quando se fala em entregar a gestão de espaços naturais a privados, a Reserva Marítima do Garajau é das primeiras sugestões apontadas por Domingos Abreu."Não vejo o que a Reserva perderia na conservação de espécies, e mesmo dos meros, se fosse gerida por um particular ou por um consórcio que envolvesse os agentes económicos que mais exploram o 'cluster' mar e litoral na zona", afirma o director regional do Ambiente.


 


Embora não assuma tão peremptoriamente a defesa da entrada de particulares na gestão de áreas naturais, Raimundo Quintal "não via com maus olhos uma gestão privada do Jardim Botânico da Madeira", desde que "os concursos fossem muito bem blindados, de modo a não permitir que a gestão ponha em risco o património natural e cultural desses espaços".


 


O geógrafo remete as suas reservas para a capacidade dos privados em cumprirem com os propósitos de conservação de natureza, quando o seu objectivo último é o lucro.


 


A título de exemplo, Raimundo Quintal indica os casos de espaços não protegidos - entre eles, a Quinta Jardins do Imperador - entregues a privados que, com o passar do tempo, se demitiram das suas responsabilidades na área da preservação das áreas concessionadas.


 


Acesso restrito ao ambiente serviu "bandeiras pessoais


 


"Ao lado de Domingos Abreu no que toca à defesa da introdução de empresas privadas na gestão de espaços naturais protegidos, Rocha da Silva acredita que a responsabilização dos particulares poderá constituir uma forma de canalizar meios para a conservação, proporcionando os meios de preservação e envolvendo o cidadão no processo.


 


"Antes, o homem era apresentado como um inimigo e só os funcionários e as pessoas ligadas à tutela podiam frequentar essas áreas protegidas, o que acabava por ser um privilégio", constata o director regional das Florestas.


 


Rocha da Silva vai mais longe e afirma mesmo que as restrições às áreas protegidas foram uma estratégia cultivada durante algum tempo na Madeira, "quanto mais não fosse como bandeira de protagonismos pessoais". "Houve pessoas que se transformaram em heróis da preservação por causa desta moda, o que até teve os seus benefícios para a conservação ao nível da sensibilização", conclui o governante com a tutela das Florestas.


 


Não à cobrança de taxas


 


A ideia de cobrar taxas de acesso às áreas protegidas com o propósito de a conservação da natureza gerar receitas próprias surgiu, no início deste mês, pela boca do secretário de Estado do Ambiente.


 


Durante um debate de urgência na Assembleia da República convocado pelo partido ecologista 'Os Verdes', Humberto Rosa sugeriu a criação de receitas através da cobrança de taxas de estacionamento, visita ou atravessamento de áreas protegidas, o que classificou como "um pequeno contributo dos visitantes para ajudar a gerir a sua presença" nestes locais ou por pequenas concessões.


 


Na Região, a proposta não é vista com 'bons olhos' pelos especialistas ligados ao sector ambiental.


 


Para Domingos Abreu, director regional do Ambiente, a medida só seria viável mediante a oferta de um serviço, podendo mesmo ser considerada como "um espécie de penalização para quem aprecia a natureza".


 


Já o director regional das Florestas entende que a cobrança de taxas nem sempre equivale a lucro. "Muitas vezes, as estruturas necessárias montar para a cobrança são elas próprias os sorvedouros das taxas", alerta. A proposta não desagrada a Raimundo Quintal, desde que as receitas sejam canalizadas para a preservação do espaço em causa. O geógrafo alerta para os perigos desta visão economicista e diz que, antes de mais, é preciso definir a carga de pessoas que cada um dos espaços pode receber. "Não se pode arranjar taxas a torto e a direito, só porque o Estado se quer demitir das suas responsabilidades", afirma Raimundo Quintal.


 


Patrícia Gaspar

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Levadas - Mais percursos seguros só com parcerias

Com a devida vénia ao Jornal da Madeira


 



 


Rocha da Silva recusa taxas ecológicas


 


JORNAL da MADEIRA - Em termos muito práticos, os percursos pedestres florestais são ou não seguros?


 


 Rocha da Silva - Depende da perspectiva, mas, em termos gerais, devo dizer que o apelativo dos percursos em montanha, para além da paisagem é o risco que está sempre inerente a eles próprios. É impossível, em qualquer parte do mundo visitar uma área de montanha em que não estejamos perante as alturas. E esse facto, por si só, é um factor de risco.


 


Percursos seguros


 


JM - Mas, há percursos seguros? Que qualquer pessoa de idade ou uma criança possa percorrer?


 


R. S. - A Região tem feito uma aposta nalguns percursos e eu lembro aqui que, inclusive, já criámos percursos para caminhantes com deficiência visual, bem como tempos providenciado, no âmbito do projecto "Tourmac", uma espécie de cadeira de rodas, que é a "joalette", que permite, com a colaboração de pelo menos duas pessoas, levar um deficiente motor a visitar aqueles locais. Mas, tudo isto tem de ser feito com "peso, conta e medida". É óbvio que há espaço para que se possa melhorar alguns percursos, para possibilitar a pessoas menos capacitadas o contacto directo com a Natureza, mas também não podemos partir para o oposto: "urbanizar" a montanha, abrindo-a a toda a gente.


 


JM - Ou seja, não vamos ter "pavimentações" de percursos ou outras beneficiações do género.


 


 R. S. - Não vamos ter coisas dessas, nem vai ser seguida qualquer política de massificação no meio natural, nem sequer de guardas-florestais lá colocados! Não são percursos citadinos! O objectivo aqui é criar algum espaço para pessoas menos dotadas, menos capacitadas fisicamente. Agora, temos de manter a integridade do meio, porque esse é que o grande apelativo das nossas montanhas. Há uma selecção de 18 percursos. Não significa que estes 18 não venham a ser complementados por outros mais, que nós achemos pertinentes. E quando digo nós, não estou a referir-me apenas ao Governo, mas também às Juntas de Freguesia, Casas do Povo, promotores turísticos, associações de desenvolvimento, etc. Desta parceria conjunta até podem surgir ideias sobre outros percursos, mas, neste momento, há 18 percursos escolhidos, onde a Região assume que vão ser intervencionados, de maneira a garantir um mínimo de condições de segurança. O resto da montanha é para se manter tal e qual está. E quando digo um mínimo de segurança é porque nesta matéria quem percorre os percursos tem uma palavra a dizer. A segurança dos utilizadores depende muito das suas atitudes. Normalmente, penalizamos, por uma questão política até, a Administração Pública, mas esquecemos que a esmagadora maioria dos acidentes ocorridos verifica-se por atitudes pessoais. Ou seja, o género do caminhante que para tirar uma fotografia tem de subir a uma rocha, do género daquele que viu uma planta na beira de uma falésia e quer colhê-la. E ainda há casos, alguns até noticiados na Comunicação Social - estou-me a lembrar de um senhor francês que foi encontrado ao fim de 13 dias no Curral das Freiras, com ele a assumir que quis andar pelas montanhas sem ser pelos trilhos e a andar a escalar as rochas e, no final, se ele não fosse encontrado estávamos aqui a lamentar mais uma morte - de pessoas que simplesmente se divertem andando por aí sem rumo, a desafiar o perigo.


 


JM - Não há uma forma de avisar essas pessoas para os perigos que correm?


 


R. S. - Em articulação com o Turismo, com os hotéis, há um conjunto de indicações que nós deixamos a quem nos visita, ou seja como contactar com serviços de apoio, de socorro, as precauções que devem ter, etc. Isto para além de alguns conselhos, como, por exemplo, a efectuarem os percursos começando pela manhã e não no final do dia, o vestuário e calçado a levar, etc. A partir daqui, penso que deve haver alguma liberdade do visitante.


 


Levada dos Piornais


 


 JM - Também há quem defenda que essas pessoas só deveriam fazer os percursos quando acompanhadas por guias devidamente habilitados?


 


R. S. - A nossa sociedade é, às vezes, um pouco contraditória. Por um lado, reclama-se mais liberdades individuais, por outro lado há tendência para se controlar o que se faz, querer-se cada vez mais regras. Cada um é livre de opinar. Na minha opinião a natureza deve continuar livre.


 


JM - Nos percursos recomendados não está a levada dos Piornais? Porquê?


 


R. S. - A levada dos Piornais é uma levada quase toda ela feita em meio urbano. Na sua essência é um acesso municipal. Há diversas residências ao longo da mesma. Por outro lado, a parte que sai fora daquele meio tem aspectos de alguma perigosidade. Quando escolhemos os 18 percursos, houve um conjunto de factores que contribuíram para a sua identificação. Primeiro, houve um trabalho de auscultação de quem trabalha nessa área. Tivemos um trabalho conjunto com a Direcção Regional do Turismo, no sentido de identificar as zonas com maior carga. Depois de identificadas essas zonas, houve, naturalmente, uma análise aos percursos, para se analisar da possibilidade, ou não, de implementar medidas de segurança. Para além disso, também ponderamos os custos das operações. Por exemplo, dou-lhe o exemplo de uma vereda muito concorrida, que é a que liga Machico ao Porto da Cruz, mas que nós, quando estivemos a ponderar os diversos factores, chegámos à conclusão que, por muitas intervenções que fizéssemos nela, nunca poderíamos dizer que a mesma era completamente segura, porque atravessa uma zona de falésia, que podemos arranjar hoje e que, amanhã, estaremos outra vez lá a arranjá-la. Com a particularidade de não sabermos se, neste intervalo, não vai passar lá alguém e não vá levar com uma pedra em cima. Tivemos, portanto, de ter um critério, que foi o de criarmos uma rede de percursos em que a Região pode garantir que, efectivamente, os que a compõem se podem fazer em segurança.


 


Porta aberta


 


JM - Falou há pouco em complementar os 18 percursos com alguns mais. Quantos?


 


R. S. - A manutenção de um percurso, seja ele qual for, não é apenas intervencionar num determinado momento. Tem custos tremendos a sua manutenção. Podemos nos agarrar aos custos, para pensarmos em taxas, etc. Mas, não sei, neste momento, em quantos mais percursos poderemos pensar. Se houver uma entidade que se responsabilize por essa manutenção e após uma comissão, que existe no âmbito do diploma que escolheu esses 18 percursos, definir que tipo de intervenção e grau de intervenção a fazer nesse percurso, essa mesma entidade assumi-la, esse percurso poderá ser integrado nessa rede de 18 percursos. Isto deixa a porta aberta a todo o género de participações, desde autarquias a operadores turísticos. É uma coisa que está dependente da participação das parcerias criadas. I


 


nvestimento para continuar


 


JM - Concordaria com a possibilidade de se criar uma taxa para ajudar a custear essas manutenções?


 


R. S. - A fase seguinte a este esforço na recuperação dos percursos, obviamente que aponta para a sua continuidade. Não podemos estar a investir agora e depois, daqui a alguns anos, estarmos a dizer que está tudo na mesma. Isso significaria que se perdeu o investimento que estamos agora a realizar. Numa perspectiva de rentabilização de um sector (os passeios a pé) que anima o mercado turístico, teremos de pensar numa fase de excelência, ou seja de percursos ainda melhor preparados do que agora. E temos de começar muito bem, a pensar no que temos para oferecer. Mas, na minha formação pessoal, se quando se fala de uma taxa se está na realidade a falar de uma portagem, ou seja a autorização, mediante pagamento, para alguém fazer o percurso, eu discordo. Acho que não é por aí que devemos ir. Mas, criar centros de acompanhamento dos visitantes, criar serviços de qualidade aos visitantes e apostar no "merchandising", que até poderão levar a criar postos de trabalho (sobretudo ao nível de guias) e que o visitante pague por todo este serviço, já seria uma outra questão. Aí, eu estaria de acordo. Estaríamos a diversificar a oferta, a criar postos de trabalho e complementos de remuneração e, paralelamente, a contribuir para a manutenção dos passeios pedestres. Aliás, há recomendações da ONU que apontam para que se deve maximizar as oportunidades que as montanhas gerem, que não se deve cobrar os acessos à montanha mas que se deve permitir criar oportunidades de negócio com essa mesma montanha.


 


Miguel Angelo

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Floresta Laurissilva progride e Freira da Madeira extingue-se

Alterações climáticas poderão ser positivas para a floresta Laurissilva mas fatais para espécies como a Freira da Madeira

 

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

 

O aumento progressivo da temperatura média anual - os cientistas situam-na entre os 1,4 e os 3,7 graus centígrados até ao final do século - "terá um impacte negativo nos habitats de altitude", prevendo-se uma "tendência para a redução da sua implantação às zonas mais elevadas" e "num dos cenários para o seu desaparecimento no final do século".

 

"Esta redução/desaparecimento poderá levar à extinção de espécies de flora e de fauna associadas, é o caso emblemático da Freira da Madeira", avisa o estudo que visou determinar a sensibilidade do arquipélago da Madeira às Alterações Globais do Clima, no âmbito do CLIMAAT II, iniciativa científica financiada pelo programa comunitária INTERREG III-B."Contudo, surge por reflexo um impacto positivo no habitat da Laurissilva: as associações vegetais que o compõem terão tendência a estabelecer-se nas áreas anteriormente ocupadas com vegetação de altitude", uma "alternância vegetativa" que "será feita muito gradualmente", lê-se mais adiante no mesmo estudo, na elaboração do qual participaram cientistas de várias instituições, sob coordenação do Instituto de Ciências Aplicadas e Tecnologia da Faculdade de Ciências de Lisboa (ICAT).

 

Conhecer o máximo possível acerca da susceptibilidade do arquipélago da Madeira às alterações climáticas que se perspectivam até ao fim deste século, em resultado do aumento das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, foi o propósito que orientou a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, através da Direcção Regional do Ambiente, ao encomendar este estudo, que não deixou de ter em conta que as "ilhas são mais vulneráveis às alterações climáticas que as áreas continentais", e os "verdadeiros santuários" que possuem a nível de biodiversidade, "fruto do isolamento a que estiveram votadas desde sempre" e que "favoreceu a evolução de plantas e animais únicos nas suas características e na sua fragilidade dando a origem a endemismos", podem vir a ser afectados com a mudança de clima.E, na ilha da Madeira, de acordo com a investigação científica, "as respostas mais visíveis dos sistemas biológicos às alterações climáticas traduzir-se-ão sobretudo em deslocação em altitude e alterações às comunidades, com substituição de umas espécies por outras".

 

Os cenários estudados pela equipa liderada pelo investigador português Filipe Duarte Santos antevêem "uma provável diminuição da área actualmente ocupada com vegetação típica de altitude (Maciço Central-Oriental), com tendência para o desaparecimento da série de vegetação rupícola de altitude que será potencialmente substituída pela série de vegetação da Laurissilva temperada do til".Em relação à Laurissilva, "apesar de também sofrer aumentos de temperaturas para além dos limites das amplitudes térmicas habituais, não deverá sofrer grandes diminuições de área ocupada, principalmente por não se prever uma diminuição da humidade relativa, variável climática de grande importância para este tipo de vegetação", conclui o estudo.

 

Novas espécies

 

Já se constatam alguns indícios de possíveis efeitos das alterações climáticas nos ecossistemas do arquipélago da Madeira, nomeadamente na área marítima. Recentemente foi registado pela primeira vez o aparecimento de duas novas espécies de crustáceos decápodes: um caranguejo, Platypodiella picta e um camarão, gnathophyllum americanum, observa o estudo, lembrando que "em ambos os casos, com estes aparecimentos, foi registado um novo limite Norte no Oceano Atlântico Oriental para a distribuição destas espécies". Também no que toca aos mamíferos marinhos, é do conhecimento dos autores que têm sido "avistadas duas novas espécies de baleia para a área da Madeira, B. borealis e B. edeni, bem como um aumento do número de baleias que utilizam estas águas, podendo estar a começar a utilizá-las não só como rota migratória mas também como área de reprodução e criação" nas águas madeirenses. Convém ainda recordar que uma investigação promovida pelo Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), dada a conhecer pelo DIÁRIO em Maio último, culminou com a descoberta de oito novas espécies de gastrópodes, na Madeira. Conduzido pelo investigador Peter Wirtz, ex-docente da UMa, este estudo decorreu ao longo do ano 2005 e, na opinião deste investigador, a presença destes animais está relacionada com o aquecimento global. Uma das espécies encontradas - um caracol de grande dimensão - dá pelo nome de "Architectonica nobilis" e tem sido avistado na zona do Caniçal.

 

Raul Caires

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Parque Temático reformula pavilhão

A comemorar dois anos, o espaço localizado em Santana aposta assim na gestão de conteúdos

 

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

 

O Parque Temático da Madeira, que comemorou no passado fim-de-semana dois anos de actividade, vai reformular em breve um dos quatro pavilhões que possui, mais precisamente o Futuro da Terra, depois de ter no ano passado introduzido alterações no Viagem Fantástica.

 

O Futuro da Terra é um espaço fechado atravessado por uma passerele audiovisual, onde o visitante assiste a um espectáculo multimédia projectado para as quatro paredes sobre o planeta, com o objectivo de sensibilizar para a necessidade de defender e preservar o ambiente e os recursos naturais. É também um espaço de consciencialização e de esperança. De acordo com Tiago Freitas, a ideia não é substituir, mas acrescentar conteúdos, mantendo o Parque como um espaço de interesse e aprendizagem para toda a família. Além destes dois, o Parque possui outros dois pavilhões: Um Mundo de Ilhas, as Ilhas no Mundo e Descoberta das Ilhas, a par de jardins e outros pontos de interesse que justificam uma visita de um dia.

 

Desde que abriu, já passaram pelos seus sete hectares cerca de 180 mil pessoas. O objectivo é atingir as 200 mil até ao final do ano, disse o director. A direcção do espaço de diversão em Santana organizou um programa especial para assinalar o segundo aniversário, onde não faltaram o bolo e o fogo-de-artifício, para além da música, com a participação de grupos de folclore, bandas filarmónicas, animação cultural, palhaços, pinta-faces, saltimbancos, malabaristas, personagens gigantes e lançadores de fogo. No sábado actuou o grupo Lírios do Norte. No domingo foi a vez do Grupo de Folclore de Santana e da Banda Filarmónica do Faial. A par das actuações, os visitantes tiveram a possibilidade de aceitar o desafio e partir à descoberta do artesanato em diferentes ateliers montados para este fim. É que o Parque Temático da Madeira oferece, com a ajuda de um grupo de artesãos, a possibilidade de pôr mãos à obra e criar pequenas peças de artesanato, desde a pichelaria ao bordado, passando pela olaria, tecelagem, pelos bonecos de palha de milho e pelos tradicionais vimes. No final, pode ainda levar a peça produzida como recordação. Os dois anos foram assinalados com um bolo gigante especial que flutuava no lago e com fogo-de-artifício, logo após o cantar de parabéns, nos dois dias. Todos os visitantes foram convidados a comemorar com bolo e champanhe a passagem de mais um ano de actividade. O Parque Temático da Madeira funciona entre as 10h00 e as 19h00. Tem multibanco e parque de estacionamento gratuito.

 

Paula Henriques

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

As visitas de John dos Passos à Madeira

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

 

Na quinta-feira, assinalou-se o 36.º aniversário da morte do eminente escritor americano John dos Passos (1896-1970). evocamos aqui as suas visitas à ilha da Madeira. Manuel Joaquim dos Passos, avô paterno do eminente escritor, era natural da Ponta do Sol, aonde nasceu em 1816. Segundo os registos de passaportes guardados no Arquivo Regional da Madeira, a 8 de Outubro de 1830, contando então 14 anos de idade, tirou o passaporte com destino a Gibraltar, seguindo no bergantim americano "Alcyon" em trânsito para aos Estados Unidos. Tendo aportado em Baltimore, acabou por radicar-se em Filadélfia. Ali contraiu matrimónio com uma senhora americana e dessa união nasceram vários filhos, um dos quais viria a ser um prestigiado advogado, John Randolph dos Passos (1844-1917).

 

Este causídico também escreveu vários livros, entre os quais destacamos os seguintes: "The inter-State Commerce act; an analysis of its provisions" e "The Anglo-Saxon Century and the unification of the English-speaking people". Este prestigiado jurisconsulto efectuou uma viagem à Madeira em 1905. Na sua edição de 10 de Maio desse ano, o Diário Popular, então publicado no Funchal, publicou o seguinte texto acerca dele: «Tem o sr. Dr. Passos um particular afecto pelo nosso país, pois na visita que em Lisboa fez ao nosso monarca, a quem foi apresentado pelo ministro americano, disse ao sr. D. Carlos que se honrava em ser um 'português-americano'. [...]

 

Na Madeira também foi sua exa. Visitar o venerando prelado funchalense e a Câmara Municipal, manifestando o mais vivo interesse por tudo quanto diz respeito aos negócios da nossa terra. Como é natural, são gratíssimas as impressões que o sr. Dr. Passos leva do nosso país, especialmente da Madeira, onde nacionais e estrangeiros lhe fizeram o mais lisonjeiro acolhimento. O sr. Dr. John R. Dos Passos conta partir hoje no 'Heidelberg' para Lisboa, de onde regressará à América, prometendo contudo voltar à Madeira oportunamente. Felicitando o grande português-americano e a sua distinta família, desejamos-lhe cordialmente uma óptima viagem, fazendo votos para que de novo volte a esta terra, que o estremece como se fosse a sua verdadeira pátria.» Apesar do seu ensejo e dos votos manifestados pela imprensa, nunca mais regressaria à ilha que um dia vira nascer o seu progenitor. Apesar de não ser referido na imprensa coeva, John Roderigo dos Passos (1896-1970) acompanhou o seu pai nesta visita, como o próprio refere no prefácio do livro "The Portugal Story": «Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai, embora falasse apenas um pouco de francês, além do inglês, nunca se esqueceu de que era meio português. Tinha oito anos quando ele me levou ao Funchal. Lembro-me das visitas de um primo idoso que me dava, no jardim do velho Reid's Hotel, uma lição diária de latim».

 

A segunda visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1921.Curiosamente, partiu de New Bedford - cidade do Estado de Massachusetts onde se radicaram inúmeros emigrantes madeirenses - a bordo do 'Mormugão', um navio da companhia Transportes Marítimos do Estado (que fez várias viagens entre Lisboa, Madeira, Açores e a cidade baleeira).

 

Estando em trânsito a caminho de Lisboa, aproveitou a breve escala na ilha para fazer de cicerone pelas ruas do Funchal a E. E. Cummings, seu companheiro de viagem, como refere na sua obra autobiográfica "Best Times". Quase 50 anos depois, num artigo patente na secção 'Voz Literária' do jornal Voz da Madeira de 10 de Janeiro de 1950 encontrámos uma notícia sobre John dos Passos relativa a uma entrevista que o prolífico autor dera a um jornal brasileiro onde terá afirmado: «Desejo voltar à Madeira, para mostrar a ilha à minha filha» e ainda «Visitarei a Ponta do Sol, onde o meu avô exerceu a profissão de sapateiro». A simplicidade de John dos Passos e a referência às humildes origens do seu avô mereceu o seguinte comentário do jornalista: «Exemplo curioso e significativo para tantos que, às vezes, querem esconder a modéstia dos seus antepassados»!

 

Com efeito, a terceira visita de John dos Passos à Madeira ocorreu em 1960, dez anos antes da sua morte. Por essa altura, o autor da famosa trilogia "U. S. A." era já um escritor consagrado no panorama literário norte-americano e mundial, tendo muitas das suas obras traduzidas em várias línguas. Seguidamente exporemos, em breves traços, a cobertura mediática que o Diário de Notícias deu a esta visita. O anúncio da sua chegada para breve foi veiculado na edição de 7 de Julho deste órgão informativo regional nestes termos: «Com uma obra romanesca que lhe deu celebridade mundial, John dos Passos, em cujas veias corre sangue português, é hoje com Hemingway, Faulkner, Caldwell e alguns mais, um dos vultos notáveis das letras norte-americanas. Vê-lo-emos brevemente na Madeira, onde passará uma temporada em gozo de férias. A sua chegada está anunciada para meados do corrente mês.» Alguns dias depois, na edição de 12 de Julho do mesmo matutino era referido que o escritor já se encontrava em Lisboa a aguardar transporte para a Madeira.

 

O correspondente deste jornal na capital subscreveu ainda estes pensamentos: «O que há de mais interessante para nós, madeirenses, é o saber-se que ele é filho do maior advogado da Casa Morgan, que há três quartos de século financiava os estudos europeus nas horas de crise, esse filho do madeirense Passos, da Ponta do Sol, que muito novo seguiu para a América a tentar fortuna. O grande escritor norte-americano vai à Madeira em romagem de saudade». A 18 de Julho o Diário de Notícias publicou uma entrevista feita pelo seu redactor ao prolífico escritor, que começara por desculpar-se por não poder falar português. Instado a pronunciar-se sobre se teria parentes na Madeira, John dos Passos respondeu afirmativamente: «Sim. Tenho muitos primos. A nossa família é muito grande. O meu avô emigrou para os Estados Unidos, um irmão dele foi para o Brasil e outros ficaram cá. Assim, tenho agora parentes aqui, em Lisboa, nos Estados Unidos e no Brasil.»

 

O escritor acrescentou ainda que «Nestes próximos dias irei à Ponta do Sol, terra dos meus antepassados, ver toda a família que ali vive.» A conversa recaiu depois sobre literatura. Falando dos seus projectos para o futuro, este ilustre luso-descendente referiu que tinha em mente a redacção de «um livro de ensaios sobre a Cultura portuguesa e os seus reflexos no Brasil e pelo mundo.» Questionado acerca da duração desta sua visita à Madeira, John dos Passos retorquiu: «Apenas uma semana. Depois, o regresso à minha casa, numa localidade perto de Washington, e o regresso ao trabalho: o livro sobre Cultura portuguesa e outros»A 19 de Julho este mesmo jornal publicou uma pequena nota anunciando que Joaquim Sequeira Cabrita, edil pontasolense, e o Dr. João Sebastião Ferreira, primo do escritor, acompanhados pelas respectivas esposas, tinham ido ao Reid's Hotel convidar John dos Passos para uma festa de homenagem em sua honra que teria lugar nos Paços do Concelho da Ponta do Sol. No dia seguinte o escritor visitou aquele concelho, acompanhado da sua esposa, Mrs. Elizabeth Hamlin Holdrige, e sua filha Lucy. Os ilustres visitantes começaram por almoçar na casa dos seus antepassados «num ambiente fraternal» onde «foram evocadas passagens longínquas dos antepassados do sr. John dos Passos.»

 

Após o repasto, estes ilustres visitantes assistiram à sessão solene em sua honra levada a efeito na Câmara Municipal onde, segundo referiu a imprensa coeva, marcaram também presença os «elementos mais representativos» da Ponta do Sol. Um dos momentos altos desta cerimónia foi a leitura, pelo edil pontasolense, de um longo discurso, do qual apresentamos apenas alguns breves excertos: «Encontra-se reunida nesta sala de tantas tradições a grande família Pontasolense com o fim de homenagear o eminente escritor americano John dos Passos, que nos deu o grande prazer de visitar a terra que serviu de berço ao seus antepassados. […] O sr. John dos Passos é um dos mais fecundos escritores do seu País e de renome mundial. É bacharel formado em arte em 1916 pela universidade de Harvard. Tem percorrido quase todo o mundo e os seus livros traduzem quase todas as realidades da vida, especialmente da americana. […] E para que este dia fique assinalado na história Pontasolense deliberou mais a Câmara colocar na casa onde nasceram os ascendentes do sr. John dos Passos, e que hoje pertence aos herdeiros do Dr. Fortunato Pita, esta inscrição: «Nesta casa nasceram os ascendentes do eminente escritor americano que visitou este concelho no dia 20 de Julho de 1960 - Homenagem da Câmara Municipal.»

 

No final desta sessão solene John dos Passos dirigiu algumas palavras de agradecimento a todos os presentes e leu um discurso de agradecimento, do qual retirámos alguns trechos: «Desculpem eu não falar a língua dos meus avós. Como sabem o meu avô deixou a Ponta do Sol há muito mais de cem anos. É deveras enternecedor para mim ser recebido com tão grande gentileza e consideração. […] Mais tarde meu pai tornou-se cada vez mais interessado a respeito da Madeira e das suas raízes portuguesas. Quando eu tinha oito anos trouxe-me, por algumas semanas ao Funchal. Assim quando aqui cheguei há dias reconheci os rochedos cor de púrpura, o mar azul, os mergulhadores e as pequenas lagartixas que correm através dos jardins do Reid's Hotel. Recordo a amável hospitalidade de amigos e parentes da Madeira.»

 

No fim desta cerimónia foi oferecido a John dos Passos dois exemplares do livro "Ilhas de Zarco", da autoria do Pe. Eduardo Nunes Pereira. Após a cerimónia solene, o escritor visitou a "Villa Passos", a casa dos seus antepassados sita à Rua Príncipe D. Luís I, que também visitara quando tinha vindo à Madeira acompanhado pelo seu pai no início do século passado. Depois desta visita, seguiu-se um «primoroso chá, que decorreu num ambiente distinto» no Club Recreativo Pontasolense.Segundo referem as edições do Diário de Notícias de 23 e 24 de Julho, durante a permanência de John dos Passos na Madeira, este ilustre escritor visitou a Junta Geral - à altura presidida pelo Dr. João de Lemos Gomes - tendo-lhe sido oferecidos vários livros sobre a Madeira editados por este organismo. Num gesto de boa vontade para com o insigne visitante esta entidade governativa proporcionou-lhe dois passeios de automóvel pelo norte da ilha. O ilustre escritor norte-americano foi ainda recebido pelo Chefe do Distrito, João Inocêncio Camacho de Freitas, que o obsequiou com um "Madeira de honra". John dos Passos visitou ainda o Arquivo Distrital, onde obteve uma certidão de nascimento do seu avô paterno, natural da Ponta do Sol. Este visitante teve ainda a oportunidade de trocar umas breves impressões com o Pe. João Vieira Caetano, pároco daquele concelho, que lhe ofereceu um dos seus livros. Antes da sua partida, o prolífico escritor, recebeu de Joaquim Sequeira Cabrita, presidente da Câmara Municipal da Ponta do Sol, um álbum fotográfico contendo uma colecção de fotografias da cerimónia de homenagem com que fora distinguido na Câmara Municipal da Ponta do Sol. Seguidamente, John dos Passos, acompanhado pela sua esposa, filha e ainda pelo edil pontasolense, dirigiu-se à redacção do Diário de Notícias a fim de «agradecer as referências que lhe fizemos a propósito da sua estadia entre nós e, ao mesmo tempo, manifestar-nos a profunda impressão de agrado que levava da nossa terra - das suas belezas naturais, do acolhimento caloroso que aqui recebera.»

 

Por sua vez, este matutino referiu o seguinte: «Sensibilizou-nos o gesto de John dos Passos, a quem desejamos excelente viagem no seu regresso aos E.U.A». O escritor e sua família deixaram a Madeira a 23 de Julho de 1960, a bordo do 'Ascania'. Terminou assim a «romagem de saudade» de John dos Passos - como foi apelidada pela imprensa da época - em busca das suas raízes insulares.

 

Duarte Mendonça (texto) / D.R. (fotografia)

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Bananeira valorizada

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

A bananeira está a ser estudada no Centro de Estudos da Macaronésia desde 1998, e revela potencialidades variadas 

 

 

A bananeira produzida na Madeira está a ser alvo de estudo no CEM (Centro de Estudos da Macaronésia), desde 1998. A responsável é a professora Nereida Cordeiro, docente da Universidade da Madeira, cujos interesses científicos se centram na Química e Tecnologia dos Materiais Agroflorestais. O seu grande "motor" de investigação é o aproveitamento de resíduos. Nos últimos anos os projectos que desenvolveu incidiram nesta vertente, com destaque para o estudo da cortiça e a bananeira. Em 1998, concluiu na Universidade de Aveiro o doutoramento sobre o "Fraccionamento da cortiça e caracterização dos seus componentes. Estudo de possibilidades de valorização da suberina". Analisou a valorização dos seus resíduos, atendendo à importância económica da cortiça em Portugal. Na ilha, como professora da UMa e investigadora do CEM, pensou em resíduos produzidos na Madeira que pudessem ser aproveitados. Entre duas hipóteses: a vinha e a bananeira optou pela última. As primeiras experiências com esta planta decorreram em 1998. «Comecei, por brincadeira, a fazer papel a partir do pseudocaule (tronco). Os resultados foram positivos quer em termos de produção, quer a nível de propriedades mecânicas, principalmente para o fabrico de cartão e papel reciclado, devido à cor ligeiramente castanha que apresenta. Consideramos que estas duas aplicações são as mais viáveis, pois embora o branqueamento seja fácil constitui mais um custo», explica a investigadora. «A ideia inicial era juntar os resíduos de papel que a Madeira envia para o Continente - e que têm custos - com as fibras de bananeira e produzir papel reciclado», acrescenta.

 

O projecto, apesar de tecnologicamente viável, esbarrou com obstáculos financeiros e não teve continuidade. «Para a instalação da empresa são necessários grandes investimentos. Em 1998 concorri a um projecto da FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) que o canalizou para a AdI (Agência de Inovação), devido à sua componente de aplicação industrial. Tentei que uma empresa na Região, com viabilidade económica, concorresse aos fundos da Agência de Inovação, mas não foi possível».

 

Embora o projecto não tenha avançado, a ideia de continuar a valorizar os resíduos da bananeira continuou. Nereida Cordeiro orienta o doutoramento em fase de conclusão de uma aluna madeirense, Ana Lúcia Oliveira, intitulado "Extracção e caracterização estrutural dos constituintes da bananeira (Dwarf Cavendish)". Financiado pela FCT é co-orientado pela professora Isabel Torres, da UMa, e pelo professor Armando Silvestre, da Universidade de Aveiro. «Os resíduos agrícolas produzidos pelo processamento comercial do cultivo das plantas são normalmente considerados como tendo um baixo valor comercial e representam quase sempre um problema para a sua eliminação. No entanto, estes materiais, na maioria dos casos, podem representar uma abundante, barata e facilmente disponível fonte renovável de biomassa lenhocelulosica aplicável em diferentes áreas», destaca a professora A bananeira é uma dessas matérias-primas. Após o corte do cacho, é produzida uma grande quantidade de resíduos agrícolas, os quais são usualmente deixados no solo para serem usados como material orgânico. Na sua perspectiva, «o desenvolvimento de novas aplicações para estes resíduos podem constituir uma fonte adicional de rendimento para os produtores de banana e para a economia regional». A investigadora salienta que, para o desenvolvimento de novas aplicações, foi necessário colmatar a lacuna existente relativamente ao conhecimento sobre a constituição química da bananeira. A nível do referido doutoramento «foi efectuado um estudo detalhado sobre a composição química das diferentes partes morfológicas da bananeira, um conhecimento que é crucial para a definição de possíveis áreas e racionalização de processos dos resíduos da bananeira».

 

Conforme explica, a planta foi fraccionada em cinco partes morfológicas (limbos, bainhas foliares, talos, nervuras/pecíolos e rachis) e caracterizadas química e estruturalmente. Os componentes macromoleculares (lenhina, açúcares, extractáveis...) foram estudados para incorporação em novos materiais. «Os estudos revelam que os limbos apresentam elevado teor de extractáveis lipídicos. O elevado conteúdo em esteróis glicosídicos, ácidos insaturados e ácidos tipo cinamicos, faz com que esta planta possa ser considerada uma fonte valiosa de fitoquímicos que podem ser usados em alimentos funcionais, ou seja, que contêm substâncias ou nutrientes com benefícios para a saúde, seja como prevenção ou tratamento de doenças». Sabemos que os esteróis glicosídicos pertencem à família dos fitoesteróis (esteróis vegetais), que têm sido intensamente estudados nas últimas décadas pelos seus variados benefícios para a saúde (em particular a sua capacidade de baixar o colesterol sanguíneo) quando incluídos na dieta humana.

 

Para além disso, recentemente, estes compostos têm merecido especial atenção descobrindo-se numerosas aplicações farmacológicas tais como anti-inflamatório, anti-mutagenico e com actividades anti-cancerígenas, acrescenta.«Visto que existe um crescente mercado à procura de alimentos funcionais enriquecidos em fitoesteróis como complemento às dietas normais, a identificação desta nova abundante fonte vegetal pode ser um bom contributo para esta crescente procura e um importante contributo para a valorização dos resíduos provenientes do cultivo e processamento da banana», admite a investigadora.

 

Embora a bananeira tenha sido o principal alvo de estudo, a banana foi analisada. Contém também grande quantidade dos referidos compostos e de anti-oxidantes. A casca foi igualmente estudada na perspectiva de aproveitamento de resíduos. As investigações prosseguem. Há dois meses teve início um projecto em ligação com o Centro de Bananicultura da Madeira que pretende estudar as diferentes variedades de banana que são ali produzidas com objectivo de mostrar quais as mais ricas nestes tipos de compostos. Nereida Cordeiro está também envolvida noutro estudo a nível agrícola. Orienta o mestrado de Lucília Sousa, intitulado "Estudo do processo de amadurecimento da Anona Cherimola Mill na Ilha da Madeira". Financiado pelo CITMA, tem como objectivo estudar as transformações químicas e correlacioná-las com as transformações genéticas que acompanham o amadurecimento deste fruto no sentido de encontrar um mecanismo para prolongar o período de comercialização da anona.

 

«Quem comercializa as anonas queixa-se que o fruto amadurece facilmente e não chega em condições ao consumidor. A ideia é perceber o processo de amadurecimento e tentar bloqueá-lo». O mestrado começou em Outubro de 2005, e a escrita da monografia está na fase final. Foram estudadas as transformações químicas. «Sabemos que, por exemplo, quando a anona está verde tem uma grande quantidade de amido. Depois, após a colheita, ao terceiro dia de amadurecimento, há um aumento muito significativo dos açúcares livres com o consequente amolecimento do fruto. Percebendo que se dão estas transformações químicas e observando em termos enzimáticos o que acontece, podemos utilizar produtos para bloquear as enzimas intervenientes e assim retardar o amadurecimento», explica. A sua grande aposta no momento é no equipamento de iGC (Cromatografia de Gás inversa) que lhe foi atribuído como investigadora e à sua unidade de investigação, no âmbito de um programa de re-equipamento científico da FCT, no valor de 168 mil euros. «A UMa tem desde Julho o único equipamento de iGC em Portugal que permite fazer análises inovadoras em termos de caracterização de superfícies. Permite prever o tipo de reacções que irão acontecer num determinado processo. As potencialidades de aplicação são imensas. Em termos industriais este equipamento é muito utilizado nas indústrias farmacêuticas e alimentares, pois a junção dos vários componentes implica o seu estudo de modo a obter boa compatibilidade. Possibilita também estudar catalisadores usados em reacções químicas». Nereida Cordeiro espera que o novo equipamento abra novas perspectivas de colaboração com outras universidades nacionais e internacionais.

 

Considera que o facto de estar na ilha condiciona a investigação na área dos resíduos. «Por isso aceito sempre novos desafios, aplicando os conhecimentos de Química analítica a outras áreas. Mas, o que mais limita é a falta de alunos com vontade de seguir a carreira de investigação, porque não é fácil». Na sua opinião «o desinteresse dos jovens manifesta-se pela instabilidade de emprego. Os investigadores vivem das bolsas durante vários anos e quando terminam têm que começar de novo sem garantias. Esta é a realidade... Depois, há a mentalidade que o emprego é para o resto da vida. Muitos dos nossos alunos ainda têm essa ideia. Às vezes, têm possibilidade de conseguirem uma bolsa bem paga, mas não querem porque não é emprego fixo». Em termos de empreendorismo, neste momento, Nereida Cordeiro é também um dos três promotores da empresa Indaircontrol sediada no CEIM (Centro de Empresas e Inovação da Madeira).

 

Trata-se do primeiro "spin-off" do seu centro de investigação, ou seja «utilizámos os conhecimentos adquiridos na investigação e transformámo-los numa empresa. É o sonho de qualquer investigador transformar a sua investigação em mais valia para o país». A Indaircontrol foi criada este ano com a ideia empregar alunos com altas qualificações (mestrados e doutoramentos) e neste momento integra professores e investigadores. A empresa obteve o prémio NEOTEC da Agência de Inovação, entidade que dá o apoio financeiro inicial, e conquistou o "Prémio Madeira de Inovação Empresarial 2005". Conforme explica a investigadora, responde à legislação emitida em Abril passado que obriga as empresas e instituições a controlarem a qualidade do ar no interior. «Muitas vezes pensamos que o ar só está poluído lá fora. No entanto, dentro das casas, chega a estar cem vezes mais poluído do que na rua. Devido às especificidades dos membros da equipa, vamos orientar a empresa para as alergias, na medida em que a Madeira apresenta a maior percentagem de casos do país. A empresa propõe-se ir a casa das pessoas detectar as possíveis fonte de alergia e indicar acções para remediar», conclui a investigadora.

 

B.I.

 

 

Nome: Nereida Maria Abano CordeiroNaturalidade: AngolaIdade: 35 anosPercurso académico e profissional: Licenciatura em Química Analítica pela Universidade de Aveiro, em 1993. Doutoramento em Química sobre o "Fraccionamento da cortiça e caracterização dos seus componentes. Estudo de possibilidades de valorização da suberina", pela Universidade de Aveiro, em 1998. Iniciou a sua actividade docente em 1993, como Monitora do Departamento de Química da Universidade de Aveiro. Em 1995, foi contratada como assistente convidada do Departamento de Química da Universidade da Madeira. Actualmente exerce funções de professora associada da UMa e é investigadora do CEM (Centro de Estudos da Macaronésia).

 

Teresa Florença (texto) / Teresa Gonçalves e DR (fotografia)

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Pescadores e restaurantes estão sem espada-preto

 

 

Com a devida vénia ao Diário de Notícias da Madeira

 

Capturas estão no nível mais baixo da última década (-24%), o preço subiu 40% pelo que o prato típico está ameaçado

 

 Nunca se pescou tão pouco peixe-espada preto como neste ano. As estatísticas oficiais reconheciam uma quebra de 23,4% no primeiro trimestre, mas a partir de Março esse valor é substancialmente superior, com uma ameaça de rotura no fornecimento para a restauração, com as unidades hoteleiras em dificuldades para manter o filete de espada como uma referência dos seus menus. Desde 1998 que os pescadores madeirenses têm vindo a capturar menos peixe-espada preto. Oito anos depois, as capturas são inferiores em quase 30%, ainda que a frota local seja maior e melhor apetrechada.

 

QUEBRAS ATINGIRAM OS 35%

 

Embora os responsáveis políticos prefiram falar dos valores da remuneração, que efectivamente tem vindo a aumentar ao longo da última década, ainda que no ano passado o valor do peixe-espada preto transaccionado (6.486.417 euros) tivesse sido 9% inferior ao volume de negócios gerado no ano 2004 (7.057.642), o que é facto é que a restauração necessita de peixe-espada, isto se quiser manter no menu um dos pratos de referência da gastronomia madeirense. Pelo que foi possível apurar, no primeiro semestre deste ano confirmou-se a quebra que se vinha registando desde o início da década, na ordem dos 24%, com os meses de Março (-26%), Abril (-35%), Maio (-17%) e Junho (-27%) a precipitarem uma descida nas descargas, ainda que em Julho (-10%) e Agosto (-1%) a quebra tivesse sido bem mais pequena.

 

Depois do ano passado se terem verificado safras de fartura, com incidentes na lota, os armadores chegaram a acordar a proibição de deixarem os aparelhos na água a pescar enquanto iam descarregar à lota, com registo do dia de saída e de chegada das embarcações, de modo a evitar fainas de mais de 8 dias, reduções estas que não faziam prever a crise a que se chegou.

 

Segundo os pescadores, no ano passado num lance conseguia-se cerca de 700 espadas. Agora, num mesmo lance vêm apenas 120. Antes um barco trazia entre 3.000 a 4.000 espadas por cada saída de 10/11 dias, agora se trouxer 1.000 a 1.500 espadas tem de se dar por satisfeito. O facto de haver pouco peixe tem obrigado, também, a que a faina decorra para além das habituais trinta milhas, obrigando os pescadores a navegar até às oitenta milhas, o que acarreta mais custos e menos idas ao mar.O facto dos últimos meses terem sido os piores dos últimos vinte anos levou a uma ameaça no fornecimento a restaurantes e hotéis, que começam a ver as suas encomendas parcialmente satisfeitas e em timings diferentes daqueles que no passado aconteciam.

 

PREÇO SUBIU CERCA DE 40%

 

Com menos peixe, pescadores e compradores estão envolvidos numa guerra de preços, pelo que o valor hoje praticado é 40% superior, com o filete pago a 7,5 euros e o rolo acima dos seis euros, valores que naturalmente condicionam os que consomem centenas de quilos por mês de peixe-espada preto, para mais quando têm outras opções bem mais baratas, o que leva a que muitos restaurantes tenham retirado do menu o tradicional filete de espada.

 

Obviamente que os recursos piscícolas e o comportamento do peixe-espada preto - espécie que se pode encontrar em vertentes continentais ou elevações submarinas (600 a 1.600 metros de profundidade) entre o Atlântico Norte, Islândia e até Canárias - é explicado pelas variações da temperatura das águas e fontes de alimentação, entre outras razões, com a gestão dos "stocks" a se constituir como o grande desafio do homem nos tempos que correm, pois os recursos não são ilimitados.

 

PESCAR NA DESOVA É AMEAÇA

 

A situação que se vive na Madeira é explicada, também, pela circunstância dos melhores meses de captura ocorrerem entre Outubro e Dezembro, período da desova, o que vem impedindo a reprodução da espécie e a manutenção dos stocks, até porque as ovas são comercializadas como se de caviar se tratasse, atingindo os 10 euros ao quilo, o que interessa sobretudo à industria transformadora.Para além dos interesses dos pescadores e armadores na gestão dos recursos piscícolas até serem antagónicos, o que agora está em causa é todo o sector da restauração, bem como as empresas associadas ao sector, pois as exportações estão em queda e até a importação dos Açores não suprime a falta de peixe, pois hoje há menos 40% de espada açoriana, porque a crise também afecta este arquipélago.Se o ganha-pão dos pescadores e o êxito empresarial dos armadores estão ameaçados, a circunstância de não haver uma política de defesa dos recursos piscícolas - com a proibição da pesca no período da desova - ameaçam, agora, a restauração e com isso a qualidade e identidade da gastronomia e por via disso o turismo.